CAT Renascer
17-04-2013 10:00
A ligação com o CAT Renascer tem sido extremamente enriquecedora, ao nível de novas experiências e sensações.
Sinceramente, acabo por receber bem mais que aquilo que consigo dar...
Têm sido inúmeras as experiências, e é difícil de transcrever para palavras, pois são pequenos momentos, um sorriso, um abraço, dois ou três passos consecutivos que uma criança dá, quando ainda o não havia feito.....
Naturalmente, nem só de experiências totalmente positivas tem sido toda esta ligação, mas as experiências com uma carga emocional mais negativa têm, também elas, sido bastante positivas, pois dão mais força e vontade de continuar a acreditar que todo este trabalho vale mesmo a pena!!
No final da semana passada, ao ir lá a casa, deparei-me com um novo residente. Ou nova, neste caso. A M., com os seus apenas 15 dias de vida, estava ali, deitada tranquilamente no seu berço, sem ter a mais pálida noção da crueldade que existiu à sua volta, e a fez aterrar ali, sem paraquedas, mas com muita gente disposta a acolhe-la e dar-lhe muito amor.
Perguntam vocês como é possível que uma vida tão recente, uma criança com apenas 15 dias, acaba num Centro de Acolhimento Temporário, e cujo destino é ficar na fila para ser adotada...
A resposta é estupida e dolorosamente simples: alguém achou que ter um filho é como ir à Zara comprar roupa, pega-se numa peça e, já em casa, experimenta-se, pois naquele dia estava cheia de pressa e a loja estava cheia, não dava para experimentar. Se não servir, devolve-se ou manda-se para um sítio qualquer, afinal até foi bem barata, mais 5 euros, menos 5 euros....
Mas nem todas as experiências são assim!!
O R., um dos miúdos da casa, tem autismo, num grau moderado, e pediram-me para filmar o dia a dia dele, em casa e na escola, de modo a criar um pequeno vídeo de apresentação, que será anexado ao seu processo de adoção. Entretanto, aproveitámos e tirei também algumas fotos, para atualizar as existentes....
Na sexta feira, passei a manhã na escola com ele. Foi engraçado, voltar a estar numa sala de aula da escola primária. Mas está tão diferente!! Vários anos numa só sala, coma mesma professora, gera uma grande confusão e barafunda. O R. tem uma educadora apenas para ele, o dia inteiro, mas está na mesma sala que os restantes alunos. É bom porque interage com mais crianças, e menos positivo porque, quando tem momentos em que grita mais alto, incomoda os colegas, e quando estes fazem mais barulho, distraem-no a ele. No entanto, o sistema de ensino foi desenhado por profissionais, por isso não o questiono... Vê-lo a montar puzzles, a escrever, mesmo que arcaicamente, o nome ou alguns números, e outras atividades mentais, foi brutal :)
Esta tarde, fui tirar-lhe fotos, no exterior da casa, aproveitando o fantástico Sol de fim de tarde. Sem mais distrações, rapidamente ele ficou à vontade com a máquina, e, com muito jeitinho, tornou-se cada vez mais fácil colocá-lo em posições mais fotogénicas, e poder captar várias expressões, desde um ar sério até sorrisos rasgados, intercalados com um ar de miúdo traquina, igual a qualquer outra criança, foi mágico... (para manter a privacidade destas crianças, não tenho autorização para publicar qualquer foto, em que surjam de face descoberta)
O destino das crianças presentes no CAT Renascer é, na quase totalidade, a adoção, apenas um número muito reduzido será reconduzido à sua família de origem, dadas as razões pelas quais foram ali acolhidas. Por vezes, ficam algum tempo, demais até, considerando a escala temporal de uma criança, mas muitas vezes o suficiente para com elas se estabelecerem laços, alguns muito fortes. Quando acontece a natural e desejada adopção, é um misto de felicidade, pois sabemos que aquela criança está entregue a uma família e tem uma nova oportunidade para ter uma Vida como merece, e uma leve sensação de tristeza, porque sabemos que o laço que estabelecemos com aquela criança foi cortado de forma permanente.
Este ano, foram já cinco as crianças adotadas!! :)
Uma delas em particular, custou-me bastante e foi um momento doloroso, mas o saber que ele estava a ir para uma família que o iria acolher e tratar condignamente, fez com que superasse rapidamente essa sensação egoísta de dor, pois o que importa mesmo é a Felicidade destas crianças. E saber que estão todas bem e integradas nas novas famílias, deixa-me com um enorme sorriso na cara.
É para isto que todos os que trabalham no CAT Renascer dão muito de si, pois, para quem trabalha nesta casa, é quase impossível deixar o coração em casa. E é por tudo isto que sei que vale a pena suar, e muito, por esta causa!!
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